Ciclo de renovação
Reis reisado
bois burrinhas encaretados
brincam do mar ao sertão
TEATRO POPULAR TRADICIONAL
REIS DE CONGO
OSWALD BARROSO
“Que anjos são esses
que andam guerreando?”
Tropel de passos
que abala a terra.
Sobre o rosto ralo
brilho de cetins e pedrarias.
Sobre o corpo gasto
cintilações de anéis e coroas.
Sobre a pele pobre
turbilhões de cores e miçangas
levitações de sedas
tatuagens e tinturas.
Quem são esses homens
de tez encardida
e passos graciosos?
Quem são esses magos
de magras figuras
e riso na boca?
Quem são esses reis
sem níquel no bolso
mas fartos de festa?
Deviam se maldizer e dançam.
As cabeças erguem hirtas
feito hóstias consagradas.
Brincam com o nunca visto
e põem pra ninar o espanto.
A dor arrastam maneira
como um arado sonâmbulo
riscando o ar de figuras.
Portam arneses e aldravas
qual vaqueiros encourados
em seus pavões de metal.
Nos seus espelhos de água
a lua bóia fatídica
e o sol retira faíscas
com seu rubro esmeril.
Serão eles cientistas
buscando o cálculo exato?Serão eles reis sem terra
deserdados retirantes?
Ou serão os reis cruzados
os doze pares de França
os reis escravos do Congo
a rainha negra de Angola?
Em que portugais e espanhas
forjaram suas espadas?
De que áfricas longínquas
de que mil e uma noites
vêm suas vozes estridentes?
Serão hyppies, andarilhos,
serão profetas em bando
ou poetas saltimbancos?
Serão santos nos andores
procissão de peregrinos?
Ou serão os alquimistas
da pedra filosofal?
De onde vem o cortejo
que brinca na travessia
e abre nesse deserto
as sete portas do riso?
Quantos reinos submersos
quantos verões de esperança
quantos vales e desertos
quantos sertões de desejos
eles trazem na garganta?
Quantas paixões quantas pontes
quantos gritos retumbantes
quantos milênios de riso
quantos duros continentes
as almas de quantos reis
nessas vestes encarnadas?
Serão escravos que sonham
com a carta de alforria?
Serão roceiros sem terra
procurando o paraíso?
Ou serão dez astronautas
a rastearem cometas?
(O brilho de seus espelhos
talvez seja a estrela guia.)Para onde vai tão ligeiro
o cortejo peregrino,
que caminhos são os seus
que batalhas descortina?
Vai pra guerra guerrear
em nome do Deus Menino.
É de aço sua espada
é de ouro seu dedal.
Reis com sono, reis cansado,
reis de bailes e roçado.
O que será que o move
na caminhada sem fim?
Serão os gestos dos rios
mimetizando espantalhos
a voz de pedras e bichos
cantando o viço das plantas
ou serão da seriema
os passos que se disfarçam?
Era noite ou era dia
quando eu vi essa folia?
Serão catedrais de marfim
o que carregam nas ancas?
Quantas terras-do-sem-fim
nessa marcha palmilharam?
Na procura de que luas
de que sóis, eles caminham,
trazendo bois coroados,
jaraguás e zabelinhas?
Que mandagascás procuram
que bagdás, alexandrias?
Serão videntes em busca
da fonte das utopias
ou serão os construtores
de Babel com sua torre?
Será que muito desejam
falar com Deus nas alturas?
Quem são os guerreiros
da eterna batalha
que a luz do sol renova?Quantos dragões ferozes,
eles terão que vencer
antes que finde a jornada?
Será que querem salvar
a princesa Genoveva,
ou será que se dirigem
ao Reino do Vai-não-torna?
Procuram outras galáxias
ou serão esses artistas
eles mesmos as estrelas
os signos do zodíaco?
Mas que palavras escreve
esse alfabeto de passos
de danças e de combates?
O que me dizem essas almas,
que o coração não diviso?
Como posso seus enigmas
desvelar se não os ouço?
Será preciso descer
ao porão das heresias
pra conhecer seus desígnios?
Sonham com Miami, Amsterdã,
com a Comuna de Paris?
Sonham alcançar o Arco do Triunfo?
A ponte de Praga com seus quinze arcebispos e sete reis?
Ou a ponte de Avignon, a que tem o destino interrompido?
Será seu inimigo o turco infiel
ou será a morte com seus carrascos?
Seguem para Belém, ou querem levantar
a mais alta torre, o mais alto arranha-céu?
Querem ser Deus, por acaso,
ressuscitar no terceiro dia?
Ou querem dar vida aos corpos inanimados,
achar o segredo da eterna juventude?
Moisés transpôs o Mar Vermelho com seu povo
em busca da redenção por Deus prometida.
Colombo descobriu o caminho das Américas
imaginando ter encontrado o Paraíso.
Antônio Conselheiro cortou os sertões
pra levantar a cidade de Belo Monte
e esperar a vinda do Rei Dom Sebastião.
Prestes varou todo o Brasil com sua colunamas não sabia ainda de que mundo era seu reino.
Pra que Terra Sem Males, pra que Babilônia
seguem esses reis no seu rumo sempiterno?
É inverno e eles ainda brincam.
Batem os tambores, tangem as violas,
sopram os pífaros. É inverno
e eles ainda brincam.
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